Quinta-feira, 9 de Dezembro de 2004

Bebido o Luar - (Sophia M. B. Andresen)

luar a.jpg

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Bebido o luar, ébrios de horizontes,


Julgamos que viver era abraçar


O rumor dos pinhais, o azul dos montes


E todos os jardins verdes do mar.


Mas solitários somos e passamos,


Não são nossos os frutos nem as flores,


O céu e o mar apagam-se exteriores


E tornam-se os fantasmas que sonhamos.


.


Por que jardins que nós não colheremos,


Límpidos nas auroras a nascer,


Por que o céu e o mar se não seremos


Nunca os deuses capazes de os viver.



publicado por Lumife às 14:37

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No mar, Sophia, lembra do Destino, da Morte e da grandeza do Universo

mar.jpg



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Como o rumor do mar dentro de um búzio


O divino sussurra no universo


Algo emerge: primordial projecto.


.


Há muito que deixei aquela praia


De grandes areais e grandes vagas


Mas sou eu ainda quem na brisa respira


E é por mim que espera cintilando a maré vasa


.


Quando eu morrer voltarei para buscar


Os instantes que não vivi junto do mar


De todos os cantos do mundo


Amo com um amor mais forte e mais profundo


Aquela praia extasiada e nua


Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.


.


Mar sonoro, mar sem fundo mar sem fim.


A tua beleza aumenta quando estamos sós.


E tão fundo intimamente a tua voz


Segue o mais secreto bailar do meu sonho


Que momentos há em que eu suponho


Seres um milagre criado só para mim.



publicado por Lumife às 14:18

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As Pessoas Sensíveis - (Sophia M. B. Andresen)

Amadeo.jpgDe Amadeo Sousa Cardoso



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As pessoas sensíveis não são capazes


De matar galinhas,


Porém são capazes


De comer galinhas


.


O dinheiro cheira a pobre e cheira


À roupa do seu corpo


Aquela roupa


Que depois da chuva secou sobre o corpo


Porque não tinham outra


O dinheiro cheira a pobre e cheira


A roupa


Que depois do suor não foi lavada


Porque não tinham outra


.


“Ganharás o pão com o suor do teu rosto”


Assim nos foi imposto


E não:


“Com o suor dos outros ganharás o pão.”


.


Ó vendilhões do templo


Ó construtores


Das grandes estátuas balofas e pesadas


Ó cheiros de devoção e de proveito


.


Perdoai-lhes Senhor


Porque eles sabem o que fazem



publicado por Lumife às 14:00

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Naquele Tempo - (Sophia M. B. Andresen)

glicinia.jpg

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Sob o caramachão de glicínia lilaz


As abelhas e eu


Tontas de perfume


.


Lá no alto as abelhas


Doiradas e pequenas


Não se ocupavam de mim


Iam de flor em flor


E cá em baixo eu


Sentada no banco de azulejos


Entre penumbra e luz


Flor e perfume


Tão ávida como as abelhas


.


Abril de 98

publicado por Lumife às 13:39

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D.António Ferreira Gomes-Bispo do Porto - (Sophia M. B. Andresen)

se_porto_portugal.jpgSé do Porto (net)



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Na cidade do Porto há muito granito


Entre névoas sombras e cintilações


A cidade parece firme inexpugnável


E sólida – mas habitada


Por súbitos clarões de profecia


Junto ao rio em cujo verde se espalham as visões


Assim quando eu entrava no paço do Bispo


E passava a mão sobre a pedra rugosa


O paço me parecia fortaleza


Porém a fortaleza não era


Os grossos muros de pedra caiada


Nem os linteis de pedra nem a escada


De largos degraus rugosos de granito


Nem o peso frio que das coisas inertes emanava


Fortaleza era o homem – o Bispo –


Alto e direito firme como torre


Ao fundo da grande sala clara: fortaleza


De sabedoria e sapiência


De compaixão e justiça


De inteligência a tudo atenta


E na face austera por vezes ao de leve o sorriso


Inconsútil da antiga infância.




publicado por Lumife às 13:27

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O Poema - Sophia M. B. Andresen)

menina-amadeo s.cardoso.jpgÓleo sobre madeira.(Amadeo Sousa Cardoso)-Museu do Caramulo



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O poema me levará no tempo


Quando eu já não for eu


E passarei sozinha


Entre as mãos de quem lê


.


O poema alguém o dirá


Às searas


.


Sua passagem se confundirá


Como rumor do mar com o passar do vento


.


O poema habitará


O espaço mais concreto e mais atento


.


No ar claro nas tardes transparentes


Suas sílabas redondas


.


(Ó antigas ó longas


Eternas tardes lisas)


.


Mesmo que eu morra o poema encontrará


Uma praia onde quebrar as suas ondas


.


E entre quatro paredes densas


De funda e devorada solidão


Alguém seu próprio ser confundirá


Com o poema no tempo


publicado por Lumife às 13:16

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Porque - (Sophia Mello Breyner Andresen)

1209126-d8cc2f5542c79d59.jpg




Porque os outros se mascaram mas tu não



Porque os outros usam a virtude



Para comprar o que não tem perdão.



Porque os outros têm medo mas tu não.




.


Porque os outros são os túmulos caiados



Onde germina calada a podridão.



Porque os outros se calam mas tu não.




.


Porque os outros se compram e se vendem



E os seus gestos dão sempre dividendo.



Porque os outros são hábeis mas tu não.




.


Porque os outros vão à sombra dos abrigos



E tu vais de mãos dadas com os perigos.



Porque os outros calculam mas tu não.



publicado por Lumife às 13:06

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Terça-feira, 7 de Dezembro de 2004

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florsombra.jpg


Florbela d’ Alma da Conceição Espanca nasceu em Vila Viçosa a 8 de Dezembro de 1894, filha de Antonia da Conceição Lobo e de João Maria Espanca. Fruto de amores extraconjugais foi, no entanto, levada para casa do pai onde foi criada. A falta da mãe e a pouca presença do pai serão marcantes em sua vida. É a busca de alguma coisa que complete o seu sentido de viver, que será uma presença constante em toda a sua obra.
Em 08 de Dezembro de 1913, Florbela casa-se com um antigo colega do Liceu, Alberto Moutinho. Este casamento no entanto não resulta em continuidade. Em 1917, vai para Lisboa e matricula-se na Faculdade de Direito. Não se sabe até hoje a razão porque Florbela se matricula em Direito apesar de Letras ser a sua vontade tantas vezes expressa.
Em 1921 dá-se um novo casamento, com Antonio Guimarães, um oficial da Guarda Nacional Republicana, que não traz à poetisa a estabilidade afectiva procurada. O amor intensamente buscado não o encontra ainda.


Numa nova tentativa, contrai um terceiro casamento em 15 de Outubro de 1925 , com Mário Lage que, no entanto, também não lhe traria a felicidade.


Na sua obra, na poesia, mas especialmente nas Cartas e no Diário do Último Ano, podemos constatar esta incessante procura do amor, a incompreensão, o ideal nunca encontrado, a dor que não se apaga.


O seu apego ao irmão Apeles morto tràgicamente num desastre aéreo em 1927 também foi um contributo para que toda a sua angustia se refletisse em grande parte de sua obra. No final desse ano Florbela escreve o livro de contos, Máscaras do Destino e dedica-o “ A meu Irmão,ao meu querido morto”.



“ A minha vida! que gâchis! - Se eu nem mesmo sei o que quero!” (Diário, 6 Fev.1930).
Ela sempre foi a incompreendida:
“Só se pode ser feliz simplificando, simplificando sempre, arrancando, diminuindo, esmagando, reduzindo; e a inteligência cria em volta de nós um mar imenso de ondas, de espumas, de destroços, no meio do qual somos depois o náufrago que se revolta, que se debate em vão, que não quer desaparecer sem estreitar de encontro ao peito qualquer coisa que anda longe: raio de sol em reflexo de estrelas” (Diário, 23 Jan.1930).


E ela não “simplificou” . E, por isso, na madrugada do dia em que completava 36 anos de idade, abandonou a vida.


“ E não haver gestos novos nem palavras novas” - (Diário, 2 Dez.1930).
Há na vida de Florbela uma data que parece ser tocada pelo destino: Nasce a 8 de Dezembro, casa pela primeira vez em 8 de Dezembro, suicida-se a 8 de Dezembro. E precisamente , 8 de Dezembro é o dia de Nossa Senhora da Conceição e foi na Igreja dedicada a Nossa Senhora da Conceição em Vila Viçosa, que Florbela d’ Alma da Conceição Espanca foi batizada.




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Bibliografia:








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Livro de Mágoas – Publicado em 1919


Livro de Soror Saudade – publicado em 1923


Charneca em Flor – publicado em 1931, por iniciativa do prof. Guido Batelli; no mesmo ano saiu uma Segunda edição desta obra seguida dos sonetos de Reliquae; é também por iniciativa de Guido Batelli que serão publicados os poemas de Juvenília;


Cartas, - 1913;


As Máscaras do Destino - 1927


Dominó Negro – Dois livros de contos – 1931



Mais tarde, uma edição de Sonetos inclui os anteriores, Livro de Mágoas, Livros de Soror Saudade, Charneca em Flor e Reliquiae.



A poesia de Florbela tem sido cantada por alguns dos grande intérpretes da canção. Destacam-se Teresa Silva Carvalho e Luís Represas, dos Trovantes, em Portugal. No Brasil, Fagner, cantor e compositor brasileiro musicou seu poema "Fanatismo".
No teatro, algumas obras lhe têm sido dedicadas. Em Portugal, em 1987 foi representado “Bela-Calígula”, e “Florbela” em 1991/1992.


No Brasil, em 1996, com texto de Maria da Luz, e produção de Miguel Falabella, a actriz Zezé Polessa trouxe à cena a personagem que teve uma vida intensa, onde sua poesia se caracterizava em verdadeiros espasmos d’alma. Em “A Bela do Alentejo” monólogo denso, intercalado com textos de Florbela, fez com que o público respirasse poesia, integrando-se ao seu poço de sofrimentos, onde uma alma feminina, dilacerada, mostra a dor e a emoção em todos os seus poemas.



publicado por Lumife às 13:32

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Horas Rubras - (Florbela Espanca)

noite luar.jpg



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Horas profundas, lentas e caladas


Feitas de beijos sensuais e ardentes,


De noites de volúpia, noites quentes


Onde há risos de virgens desmaiadas...


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Oiço as olaias rindo desgrenhadas...


Tombam astros em fogo, astros dementes,


E do luar os beijos languescentes


São pedaços de prata p’las estradas...


.


Os meus lábios são brancos como lagos...


Os meus braços são leves como afagos,


Vestiu-os o luar de sedas puras...


.


Sou chama e neve branca e misteriosa...


E sou, talvez, na noite voluptuosa,


Ó meu Poeta, o beijo que procuras!



publicado por Lumife às 13:05

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Teus Olhos - (Florbela Espanca)

fernando_.jpg



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Olhos do meu Amor! Infantes loiros


Que trazem os meus presos, endoidados!


Neles deixei, um dia, os meus tesoiros:


Meus anéis, minhas rendas, meus brocados.


.


Neles ficaram meus palácios moiros,


Meus carros de combate, destroçados,


Os meus diamantes, todos os meus oiros


Que trouxe d’Além-Mundos ignorados!


.


Olhos do meu amor! Fontes...cisternas...


Enigmáticas campas medievais...


Jardins de Espanha...catedrais eternas...


.


Berço vindo do céu à minha porta...


Ó meu leito de núpcias irreais!...


Meu suntuoso túmulo de morta!...



publicado por Lumife às 12:55

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