Terça-feira, 7 de Dezembro de 2004

Anoitecer - (Florbela Espanca)

anoitecer_.jpgFoto de João Quintela



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A luz desmaia num fulgor d'aurora,


Diz-nos adeus religiosamente...


E eu que não creio em nada, sou mais crente


Do que em menina, um dia, o fui...outr'ora...


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Não sei o que em mim ri, o que em mim chora,


Tenho bênçãos d'amor pra toda a gente!


E a minha alma sombria e penitente


Soluça no infinito desta hora...


.


Horas tristes que são o meu rosário...


Ó minha cruz de tão pesado lenho!


Ó meu áspero e intérmino Calvário!


.


E a esta hora tudo em mim revive:


Saudades de saudades que não tenho...


Sonhos que são os sonhos dos que eu tive...



publicado por Lumife às 12:41

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Nunca Mais ! - (Florbela Espanca)

206a.jpg

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Ó castos sonhos meus! Ó mágicas visões!


Quimeras cor de sol de fúlgidos lampejos!


Dolentes devaneios! Cetíneas ilusões!


Bocas que foram minhas florescendo beijos!


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Vinde beijar-me à fronte ao menos num instante,


Que eu sinta esse calor, esse perfume terno;


Vais a chorar à porta onde outrora o Dante


Deixou toda a esp’rança ao penetrar no inferno!


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Vinde sorrir-me ainda! Hei de morrer contente


Cantando uma canção alegremente, doidamente,


À luz desse sorriso, ó fugitivos ais!


.


Vinde beijar-me a boca ungir-me de saudade


Ó sonhos cor de sol da minha mocidade!


Cala-te lá destino!...


“Ó Nunca, nunca mais...!”



publicado por Lumife às 12:22

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Ser Poeta - (Florbela Espanca)

poeta-P.Picasso.jpgPoeta-P.Picasso



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Ser poeta é ser mais alto, é ser maior


Do que os homens! Morder como quem beija!


É ser mendigo e dar como quem seja


Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!


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É ter de mil desejos o esplendor


E não saber sequer que se deseja!


É ter cá dentro um astro que flameja,


É ter garras e asas de condor!


.


É ter fome, é ter sede de Infinito!


Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...


É condensar o mundo num só grito!


.


E é amar-te, assim, perdidamente...


É seres alma, e sangue, e vida em mim


E dizê-lo cantando a toda a gente!




publicado por Lumife às 11:57

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O Meu Alentejo - (Florbela Espanca)

alentejo.jpg



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Meio-dia. O sol a prumo cai ardente,


Doirando tudo...Ondeiam nos trigais


D’oiro fulvo, de leve...docemente...


As papoilas sangrentas, sensuais...


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Andam asas no ar; as raparigas,


Flores desabrochadas em canteiros,


Mostram, por entre o oiro das espigas,


Os perfis delicados e trigueiros...


.


Tudo é tranqüilo, e casto, e sonhador...


Olhando esta paisagem que é uma tela


De Deus, eu penso então: Onde há pintor,


.


Onde há artista de saber profundo,


Que possa imaginar coisa mais bela,


Mais delicada e linda neste mundo?!




publicado por Lumife às 00:42

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