Sexta-feira, 25 de Fevereiro de 2005

Creio nos anjos ... (Natália Correia)

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*



Creio nos anjos que andam pelo mundo,

Creio na deusa com olhos de diamantes,

Creio em amores lunares com piano ao fundo,

Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,


*


Creio num engenho que falta mais fecundo

De harmonizar as partes dissonantes,

Creio que tudo é étero num segundo,

Creio num céu futuro que houve dantes,


*


Creio nos deuses de um astral mais puro,

Na flor humilde que se encosta ao muro

Creio na carne que enfeitiça o além,


*


Creio no incrível, nas coisas assombrosas,

Na ocupação do mundo pelas rosas,

Creio que o amor tem asas de ouro. Ámen.

publicado por Lumife às 18:25

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Quinta-feira, 17 de Fevereiro de 2005

Soneto

smiguel.jpg



Nessa manhã as garças não voaram

E dos confins da luz um deus chamou.

Docemente teus cílios se fecharam

Sobre o olhar onde tudo começou.


*


A terra uivou. Todas as cores mudaram

O mar emudeceu. O ar parou.

Escuros véus de pranto o sol taparam

De azáleas lívidas a ilha se cercou.


*


A que pélago o esquife te levava?

Não ao termo. A não chorar os mortos.

Teu sumo espiritual florido ensina.


*


E se o mundo em ti principiava,

No teu mistério entre astros absortos,

Suavemente, ó mãe, tudo termina.



*


(Natália Correia)

publicado por Lumife às 18:36

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Quarta-feira, 16 de Fevereiro de 2005

O sol nas noites e o luar nos dias - Natália Correia-

Sol_e_lua.jpg




De amor nada mais resta que um Outubro

e quanto mais amada mais desisto:

quanto mais tu me despes mais me cubro

e quanto mais me escondo mais me avisto.


*


E sei que mais te enleio e te deslumbro

porque se mais me ofusco mais existo.

Por dentro me ilumino, sol oculto,

por fora te ajoelho, corpo místico.


*


Não me acordes. Estou morta na quermesse

dos teus beijos. Etérea, a minha espécie

nem teus zelos amantes a demovem.


*


Mas quanto mais em nuvem me desfaço

mais de terra e de fogo é o abraço

com que na carne queres reter-me jovem.



publicado por Lumife às 03:17

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Domingo, 13 de Fevereiro de 2005

Núvens correndo num rio - (Natália Correia)

menez.jpgAS NÚVENS de Maria Inês Ribeiro da Fonseca (Menez) (1926-1995)



Nuvens correndo num rio

Quem sabe onde vão parar?

Fantasma do meu navio

Não corras, vai devagar!



Vais por caminhos de bruma

Que são caminhos de olvido.

Não queiras, ó meu navio,

Ser um navio perdido.



Sonhos içados ao vento

Querem estrelas varejar!

Velas do meu pensamento

Aonde me quereis levar?



Não corras, ó meu navio

Navega mais devagar,

Que nuvens correndo em rio,

Quem sabe onde vão parar?



Que este destino em que venho

É uma troça tão triste;

Um navio que não tenho

Num rio que não existe.


publicado por Lumife às 17:10

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Domingo, 6 de Fevereiro de 2005

EUGÉNIO DE ANDRADE - Bibliografia

eug and.cytgh.jpg



Narciso (Poesia), 1940

Adolescente (Poesia), 1942

Pureza (Poesia), 1945

As Mãos e os Frutos (Poesia), 1948 ; 2000

Os Amantes Sem Dinheiro (Poesia), 1950 ; 2000

As Palavras Interditas (Poesia), 1951 ; 2002

Até Amanhã (Poesia), 1956 ; 2002

Coração do Dia (Poesia), 1958 ; 1994

Antologia: 1945-1961 (Poesia), 1961 ; 1968

Mar de Setembro (Poesia), 1961 ; 1994

Ostinato Rigore (Poesia), 1964 ; 1997

Poemas: 1945-1965 (Poesia), 1966 ; 1971

Daqui Houve Nome Portugal: antologia de verso e prosa sobre o Porto (Antologia), 1968 ; 2000

Os Afluentes do Silêncio (Prosa), 1968 ; 1997

Obscuro Domínio (Poesia), 1971 ; 2000

Antologia Breve (Poesia), 1972 ; 1999

Véspera da Água (Poesia), 1973 ; 1990

Escrita da Terra (Poesia), 1974 ; 2002

Homenagens e Outros Epitáfios (Poesia), 1974 ; 1993

Limiar dos Pássaros (Poesia), 1976 ; 1994

História da Égua Branca (Infantil), 1976 ; 2002

Chuva sobre o Rosto (Poesia), 1976 ; 2002

Primeiros Poemas (Poesia), 1977 ; 2000

Memória doutro Rio (Poesia), 1978 ; 1985

Rosto Precário (Prosa), 1979 ; 1995

Matéria Solar (Poesia), 1980 ; 2000

Poesia em Verso e Prosa (Antologia), 1980

Poesia e Prosa: 1940-1979 (Antologia), 1980 ; 1990

O Peso da Sombra (Poesia), 1982 ; 1989

Branco no Branco (Poesia), 1984

Aquela Nuvem e Outras (Poesia para a infância), 1986 ; 2001

A Domingos Peres das Eiras, com umas violetas (Prosa), 1986

Vertentes do Olhar (Prosa), 1987 ; 1998

Porto: Os Sulcos do Olhar, 1988

O Outro Nome da Terra (Poesia), 1988 ; 1989

Uma Casa para a Poesia (Teixeira de Pascoais) (Ensaio), 1990

Poesia, Terra de Minha Mãe (Poesia), 1992 ; 1998

Rente ao Dizer (Poesia), 1992 ; 2002

Contra a Obscuridade (Poesia), 1992 ; 1993

À Sombra da Memória (Prosa), 1993

A Cidade de Garrett (Prosa), 1993 ; 1997

Ofício de Paciência (Poesia), 1994 ; 2000

O Sal da Língua (Poesia), 1995 ; 1996

Pequeno Formato (Poesia), 1997

Os Lugares do Lume (Poesia), 1998

Poesia (Poesia Reunida), 2000

Os Sulcos da Sede (Poesia), 2001

Sete Livros, Sete Retratos (Poesia Reunida), 2002

Pequeno Caderno do Oriente (Prosa), 2002



publicado por Lumife às 23:05

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Green God

toc flauta.jpgEdouard Manet




Trazia consigo a graça


das fontes quando anoitece.


Era o corpo como um rio


em sereno desafio


com as margens quando desce





Andava como quem passa


sem ter tempo de parar.


Ervas nasciam dos passos,


cresciam troncos dos braços


quando os erguia no ar.





Sorria como quem dança.


E desfolhava ao dançar


o corpo, que lhe tremia


num ritmo que ele sabia


que os deuses devem usar.





E seguia o seu caminho,


porque era um deus que passava.


Alheio a tudo o que via,


enleado na melodia


duma flauta que tocava.



publicado por Lumife às 22:56

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Sexta-feira, 4 de Fevereiro de 2005

Eugénio de Andrade

ea.jpg




Eugénio de Andrade é um dos mais lidos e traduzidos dos poetas portugueses vivos. Após algumas tentativas juvenis que mais tarde repudiou, impôs-se definitivamente no panorama da actual poesia portuguesa com "As Mãos e os Frutos" (1948).



Contemporâneo dos movimentos neo-realista e surrealista, quase não acusa influência de quaisquer escolas literárias, propondo uma poesia elementar, cuja musicalidade só encontra precedentes na nossa lírica medieval, ou num poeta como Camilo Pessanha, que Eugénio de Andrade assume - a par de Cesário Verde - como um dos seus mestres.



Em Eugénio de Andrade, a poesia dos elementos é também poderosa, mas quase sempre reportada ao amor - da natureza, dos seres e do corpo. Muito sensual e literária, plástica e musical, a sua poesia concebe-se como reelaboração da palavra até um limite de despojamento que parte do mundo (agudamente percebido) para reencontrar nele o ser eleito e, em última análise, a solidão como reduto essencial.



Eugénio tem a faculdade de articular o circunstancial com o absoluto, de perceber num ambiente concreto a voz de comunicação que o levará à inscrição poética, à transfiguração modelar, numa expressão límpida e pura muito própria.



bgtj.jpg



URGENTEMENTE


de Eugénio de Andrade





É urgente o amor.


É urgente um barco no mar.


.


É urgente destruir certas palavras,


ódio, solidão e crueldade,


alguns lamentos, muitas espadas.


.


É urgente inventar alegria,


multiplicar os beijos, as searas,


é urgente descobrir rosas e rios


e manhãs claras.


.


Cai o silêncio nos ombros e a luz


impura, até doer.


É urgente o amor, é urgente permanecer.



.


(Recanto da Alegna)





publicado por Lumife às 03:08

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