Terça-feira, 29 de Março de 2005

Eu que sou feio ... (Cesário Verde)

omni.jpg



Eu, que sou feio, sólido, leal,

A ti, que és bela, frágil, assustada,

Quero estimar-te, sempre, recatada

Numa existência honesta, de cristal.


*


Sentado à mesa dum café devasso.

Ao avistar-te, há pouco, fraca e loura.

Nesta Babel tão velha e corruptora,

Tive tenções de oferecer-te o braço.


*


E, quando socorreste um miserável,

Eu que bebia cálices de absinto,

Mandei ir a garrafa, porque sinto

Que me tornas prestante, bom, saudável.


*


«Ela aí vem!» disse eu para os demais;

E pus-me a olhar, vexado e suspirando,

O teu corpo que pulsa, alegre e brando,

Na frescura dos linhos matinais.


*


Via-te pela porta envidraçada;

E invejava, - talvez não o suspeites!-

Esse vestido simples, sem enfeites,

Nessa cintura tenra, imaculada.


*


Ia passando, a quatro, o patriarca.

Triste eu saí. Doía-me a cabeça.

Uma turba ruidosa, negra, espessa,

Voltava das exéquias dum monarca.


*


Adorável! Tu muito natural,

Seguias a pensar no teu bordado;

Avultava, num largo arborizado,

Uma estátua de rei num pedestal.

publicado por Lumife às 00:32

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Quarta-feira, 23 de Março de 2005

De Tarde - (Cesário Verde)

amaryllis.gif




Naquele “pic-nic” de burguesas,

Houve uma coisa simplesmente bela,

E que, sem ter história nem grandezas,

Em todo o caso dava uma aguarela.


*


Foi quando tu, descendo do burrico,

Foste colher, sem imposturas tolas,

A um granzoal azul de grão de bico

Um ramalhete rubro de papoulas.


*


Pouco depois, em cima duns penhascos,

Nós acampámos, indo o sol se via;

E houve talhadas de melão, damascos

E pão de ló molhado em malvasia.


*


Mas, todo púrpuro, a sair da renda

Dos teus dois seios como duas rolas,

Era o supremo encanto da merenda

O ramalhete rubro das papoulas!


publicado por Lumife às 18:01

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Sexta-feira, 18 de Março de 2005

NATÁLIA CORREIA

natalia.jpg




Açoreana, natural da Ilha de São Miguel, Natália de Oliveira Correia nasceu a 13 de Setembro de 1923.


Veio, ainda criança, estudar para Lisboa iniciando muito cedo a sua actividade literária. Figura importante da poesia portuguesa contemporânea, trabalha, também, a sua criatividade como ensaísta e romancista, passando pelo teatro e investigação literária.
Figura destacada da luta contra o fascismo, viu vários dos seus livros serem apreendidos pela censura, tendo sido condenada a três anos de prisão, com pena suspensa, por abuso de liberdade de imprensa.


Foi eleita depudada pelo Partido Social Democrata, passando depois a independente.
Colaborou com frequência em diversas publicações portuguesas e estrangeiras. A sua obra está traduzida em várias línguas.


Morre em Lisboa a 16 de Março de 1993.


Algumas obras importantes são:

Obras poéticas:


Rio de Nuvens (1947), Poemas (1955), Dimensão Encontrada (1957), Passaporte (1958), Comunicação (1959), Cântico do País Imerso (1961), O Vinho e a Lira (1966), Mátria (1968), As Maçãs de Orestes (1970), Mosca Iluminada (1972), O Anjo do Ocidente à Entrada do Ferro (1973), Poemas a Rebate (1975), Epístola aos Iamitas (1976), O Dilúvio e a Pomba (1979), Sonetos Românticos (1990), O Armistício (1985), O Sol das Noites e o Luar nos Dias (1993), Memória da Sombra (1994, com fotos de António Matos).


Ficção:


Anoiteceu no Bairro (1946), A Madona (1968), A Ilha de Circe (1983).


Teatro:


O Progresso de Édipo (1957), O Homúnculo (1965), O Encoberto (1969), Erros meus, má fortuna, amor ardente (1981), A Pécora (1983).


Ensaio:


Poesia de arte e realismo poético (1958), Uma estátua para Herodes (1974).


Obras várias:


Descobri que era Europeia (1951 - viagens), Não Percas a Rosa (1978 - diário), A questão académica de 1907 (1962), Antologia da Poesia Erótica e Satírica (1966), Cantares Galego-Portugueses (1970), Trovas de D. Dinis (1970), A Mulher (1973), O Surrealismo na Poesia Portuguesa (1973), Antologia da Poesia Portuguesa no Período Barroco (1982), A Ilha de São Nunca (1982).

publicado por Lumife às 02:33

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Segunda-feira, 7 de Março de 2005

O Encontro - (Natália Correia)

inesq.jpg



*



Como se um raio mordesse

meu corpo pêro rosado

e o namorado viesse

ou em vez do namorado


*



um novilho atravessasse

meus flancos de seda branca

e o trajecto me deixasse

uma açucena na anca


*



como se eu apenas fosse

o efeito de um feitiço

um astro me desse um couce

e eu não sofresse com isso


*



como se eu já existisse

antes do sol e da lua

e se a morte me despisse

eu não me sentisse nua


*



como se Deus cá em baixo

fosse um cigano moreno

como se Deus fosse macho

e as minhas coxas de feno


*



como se alguém dos espaços

me desse o nome de flor

ou me deixasse nos braços

este cordeiro de amor



publicado por Lumife às 23:41

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Sexta-feira, 4 de Março de 2005

Ode à Paz - (Natália Correia)

Paz.jpg




Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,

Pelas aves que voam no olhar de uma criança,

Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,

Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,

pela branda melodia do rumor dos regatos,

Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,

Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,

Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,

Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,

Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,

Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,

Pelos aromas maduros de suaves outonos,

Pela futura manhã dos grandes transparentes,

Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,

Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas

Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,

Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,

Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz,

Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,

Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,

Abre as portas da História,

deixa passar a Vida!

publicado por Lumife às 18:14

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