Quinta-feira, 26 de Maio de 2005

Súplica - (Miguel Torga)

praia.jpg





Agora que o silêncio é um mar sem ondas,

E que nele posso navegar sem rumo,

Não respondas

Às urgentes perguntas

Que te fiz.

Deixa-me ser feliz

Assim,

Já tão longe de ti como de mim.


*


Perde-se a vida a desejá-la tanto.

Só soubemos sofrer, enquanto

O nosso amor

Durou.

Mas o tempo passou,

Há calmaria...

Não perturbes a paz que me foi dada.

Ouvir de novo a tua voz seria

Matar a sede com água salgada





publicado por Lumife às 21:45

link do post | comentar | ver comentários (3) | favorito
|
Segunda-feira, 23 de Maio de 2005

Desfecho - Miguel Torga

mt0087.jpg





Não tenho mais palavras.

Gastei-as a negar-te...

(Só a negar-te eu pude combater

O terror de te ver

Em toda a parte.)

Fosse qual fosse o chão da caminhada,

Era certa a meu lado

A divina presença impertinente

Do teu vulto calado

E paciente...

E lutei, como luta um solitário

Quando alguém lhe perturba a solidão.

Fechado num ouriço de recusas,

Soltei a voz, arma que tu não usas,

Sempre silencioso na agressão.

Mas o tempo moeu na sua mó

O joio amargo do que te dizia...

Agora somos dois obstinados,

mudos e malogrados,

Que apenas vão a par na teimosia.




publicado por Lumife às 23:56

link do post | comentar | favorito
|
Sábado, 21 de Maio de 2005

Identidade - (MIGUEL TORGA)

penedo.jpg





Matei a lua e o luar difuso

Quero os versos de ferro e de cimento

E em vez de rimas, uso

As consonâncias que há no sofrimento


*


Universal e aberto, o meu instinto acode

A todo coração que se debate aflito

e luta como sabe e como pode:

Dá beleza e sentido a cada grito.


*


Mas como as inscrições nas penedias

Têm maior duração,

Gasto as horas e os dias

A endurecer a forma da emoção.





publicado por Lumife às 02:35

link do post | comentar | favorito
|
Segunda-feira, 16 de Maio de 2005

Alentejo - (Miguel Torga)

at.jpg





A luz que te ilumina,

Terra da cor dos olhos de quem olha!

A paz que se adivinha

Na tua solidão

Que nenhuma mesquinha

Condição

Pode compreender e povoar!

O mistério da tua imensidão

Onde o tempo caminha

Sem chegar!...



publicado por Lumife às 21:43

link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 13 de Maio de 2005

Transfiguração - (MIGUEL TORGA)

Deusa.jpg





Tens agora outro rosto, outra beleza:

Um rosto que é preciso imaginar,

E uma beleza mais furtiva ainda...

Assim te modelaram caprichosas,

Mãos irreais que tornam irreal

O barro que nos foge da retina.

Barro que em ti passou de luz carnal

A bruma feminina...


*


Mas nesse novo encanto

Te conjuro

Que permaneças.

Distante e preservada na distância.

Olímpica recusa, disfarçada

De terrena promessa

Feita aos olhos tentados e descrentes.

Nenhum mito regressa...

Todas as deusas são mulheres ausentes



publicado por Lumife às 17:27

link do post | comentar | favorito
|
Terça-feira, 10 de Maio de 2005

Ariane - (MIGUEL TORGA)

navio001.jpg






Ariane é um navio.

Tem mastros, velas e bandeira à proa,

E chegou num dia branco, frio,

A este rio Tejo de Lisboa.


*


Carregado de Sonho, fundeou

Dentro da claridade destas grades...

Cisne de todos, que se foi, voltou

Só para os olhos de quem tem saudades...


*


Foram duas fragatas ver quem era

Um tal milagre assim: era um navio

Que se balança ali à minha espera

Entre gaivotas que se dão no rio.


*


Mas eu é que não pude ainda por meus passos

Sair desta prisão em corpo inteiro,

E levantar a âncora, e cair nos braços

De Ariane, o veleiro.




*


Lisboa, Cadeia do Aljube, 1 de Janeiro de 1940




publicado por Lumife às 18:12

link do post | comentar | favorito
|
Segunda-feira, 9 de Maio de 2005

Ciganos - (MIGUEL TORGA)

Eduardo Viana.jpgAcampamento de Ciganos de Eduardo Viana - 1881-1967





Tudo o que voa é ave.


Desta janela aberta

A pena que se eleva é mais suave


E a folha que plana é mais liberta.


*



Nos seus braços azuis o céu aquece


Todo o alado movimento.


É no chão que arrefece


O que não pode andar no firmamento.


*



Outro levante, pois, ciganos!


Outra tenda sem pátria mais além!


Desumanos


São os sonhos, também...





publicado por Lumife às 00:19

link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 4 de Maio de 2005

BOCAGE - 1765-1805

boc.jpg



Do essencial da vida do poeta podemos mencionar o facto de ser natural de Setúbal, tendo partido muito jovem ainda para o Oriente onde permaneceu alguns anos. De regresso a Portugal entrou para a Nova Arcádia com o nome de Elmano Sadino. Em breve, porém, satirizava os seus membros; acusado de revolucionário veio a ser preso. Faleceu com apenas 40 anos.



A sua obra é constituída por todos os géneros poéticos em curso no seu tempo, mas foi no soneto que deixou o melhor de si próprio; nas suas composições combina elementos neoclassicistas com o gosto pelo pré-romantismo. A solidão, o sofrimento, o amor-ciúme, o belo-horrível, a morte, são alguns dos temas que trata, de acordo com o próprio infortúnio da sua vida.



FICHA BIOGRÁFICA



1765 - Nascimento de Bocage em Setúbal



1775 - Morte de sua mãe



1781 - Bocage assenta praça no regimento de Setúbal



1783 - Bocage alista-se no corpo da Marinha Real em Lisboa iniciando uma vida de boémia



1786 - Partida de Bocage para a Índia



1789 - Em Damão é promovido a Tenente de Infantaria e parte para Macau



1790 - Regresso de Bocage a Lisboa. Ganha fama como poeta e torna-se membro da Nova Arcádia



1791 - Publicação do primeiro tomo das "Rimas" firmando a sua reputação poética



1794 - Expulsão de Bocage da Nova Arcádia com base nas críticas aos seus membros



1797 - Prisão de Bocage no Limoeiro em consequência da devassa à sua vida por parte de Pina Manique



1798 - Transferido para o Oratório para cura espiritual



1799 - Regressa à liberdade, doente e arrependido do modo de vida que levara



1805 - Morre em Lisboa




BIBLIOGRAFIA:




Títulos e edições principais da obra poética de Bocage:



Rimas, 3 volumes, Lisboa 1791, 1799 e 1804



Obras Completas, Rio de Janeiro, 1811



Rimas, 4º volume (precedido de um discurso sobre a vida e escritos do poeta por José Maria da Costa e Silva), Lisboa, 1812



Rimas, 5º volume, Lisboa, 1813



Rimas, 6º volume, Lisboa, 1814



Obras poéticas (7 volumes), Lisboa, 1849-50



Poesias (6 volumes), edição de Inocêncio Francisco da Silva, com um estudo de Rebelo da Silva, Lisboa, 1853



Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas, Lisboa, 1854



Poesias (Selecção - Colecção Clássicos da Sá da Costa), Lisboa 1942



Sonetos e Poesias Várias, com prefácio de Vitorino Nemésio, Colecção Clássicos Portugueses, Lisboa, 1943



O Livro das Fábulas, Lisboa 1930, com ilustrações de Julião Machado



Obras Escolhidas (2 volumes) com prefácio e notas de Hernâni Cidade e ilustrações de Lima de Freitas, Lisboa, 1969



Opera Omnia (3 volumes) publicados sob a direcção de Hernâni Cidade, Lisboa 1969-70



Poesias de Bocage com prefácio de Margarida Barahona na Colecção Textos Literários, Serra Nova, Lisboa 1981



Antologia Poética, selecção e introdução de Mª Antónia Carmona Mourão e Mª Fernanda Pereira Nunes, Bib. Ulisseia de Autores Portugueses, Lisboa






publicado por Lumife às 23:35

link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Dezembro 2006

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.posts recentes

. ...

. ...

. ...

. Das utopias

. ...

.

.

.

.

.

.arquivos

. Dezembro 2006

. Outubro 2006

. Março 2006

. Dezembro 2005

. Outubro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

. Abril 2005

. Março 2005

. Fevereiro 2005

. Janeiro 2005

. Dezembro 2004

blogs SAPO

.subscrever feeds