Quarta-feira, 27 de Julho de 2005

INTIMIDADE - Antero de Quental

Ricardo Sobral-Olhares.jpgFoto de Ricardo Sobral -(Olhares)




Quando, sorrindo, vais passando, e toda

Essa gente te mira cobiçosa,

Es bela - e se te não comparo a rosa,

E que a rosa, bem vês, passou de moda...



Anda-me as vezes a cabeça a roda,

Atras de ti também, flor caprichosa!

Nem pode haver, na multidão ruidosa,

Coisa mais linda, mais absurda e doida.



Mas é na intimidade e no segredo,

Quando tu coras e sorris a medo,

Que me apraz ver-te e que te adoro, flor!



E não te quero nunca tanto (ouve isto)

Como quando por ti, por mim, por Cristo, Juras

- mentindo - que me tens amor...



publicado por Lumife às 00:56

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Sexta-feira, 22 de Julho de 2005

Poema de Pedro Homem de Melo

f180181.jpgElsa Mota Gomes (1000 Images)



Noite. Fundura. A treva


E mais doce talvez...


E uma ânsia de nudez


Sacode os filhos de Eva.








Não a nudez apenas


Dos corpos sofredores


Mas a das almas plenas


De indecisos amores.








A voz do sangue grita


E a das almas responde!


Labareda infinita


Que nas sombras se esconde.








Mas quase sem ruído,


Na carne ao abandono


O hálito do sono


Desce como um vestido...





publicado por Lumife às 17:10

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Quarta-feira, 13 de Julho de 2005

Este Livro - José Luis Peixoto

36-az cel-L1.gif




este livro. passa um dedo pela página, sente o papel

como se sentisses a pele do meu corpo, o meu rosto.



este livro tem palavras. esquece as palavras por

momentos. o que temos para dizer não pode ser dito.



sente o peso deste livro. o peso da minha mão sobre

a tua. damos as mãos quando seguras este livro.



não me perguntes quem sou. não me perguntes nada.

eu não sei responder a todas as perguntas do mundo.



pousa os lábios sobre a página. pousa os lábios sobre

o papel. devagar, muito devagar. vamos beijar-nos.


publicado por Lumife às 23:11

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Segunda-feira, 11 de Julho de 2005

Garras dos Sentidos - Agustina Bessa-Luís

ovid-amores.jpg




Não quero cantar amores,

Amores são passos perdidos,

São frios raios solares,

Verdes garras dos sentidos.




São cavalos corredores

Com asas de ferro e chumbo,

Caídos nas águas fundas,

não quero cantar amores.




Paraísos proibidos,

Contentamentos injustos,

Feliz adversidade,

Amores são passos perdidos.




São demências dos olhares,

Alegre festa de pranto,

São furor obediente,

São frios raios solares.




Da má sorte defendidos

Os homens de bom juízo

Têm nas mãos prodigiosas

Verdes garras dos sentidos.




Não quero cantar amores

Nem falar dos seus motivos.



publicado por Lumife às 03:33

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Quinta-feira, 7 de Julho de 2005

Viagens na minha terra - António Nobre

MalaPosta_.gif

Malaposta de Lisboa a Coimbra, 1798 (Reconstituição a óleo por J. Pedro Roque, 1968)



Às vezes, passo horas inteiras


Olhos fitos nestas Traseiras,


Sonhando o tempo que lá vai;


E jornadeio em fantasia


Essas jornadas que eu fazia


Ao velho Douro, mais meu Pai.




*




Que pitoresca era a jornada!


Logo, ao subir da madrugada,


Prontos os dois para partir:


— Adeus! adeus! é curta a ausência,


Adeus! — rodava a diligência


Com campainhas a tinir!



*





E, dia e noite, aurora a aurora,


Por essa doida terra fora,


Cheia de Cor, de Luz, de Som,


Habituado à minha alcova


Em tudo eu via coisa nova,


Que bom era, meu Deus! que bom!




*




Moinhos ao vento! Eiras! Solares!


Antepassados! Rios! Luares!


Tudo isso eu guardo, aqui ficou:


ó paisagem etérea e doce,


Depois do Ventre que me trouxe


A ti devo eu tudo que sou




*




No arame oscilante do Fio,


Amavam (era o mês do cio)


Lavandiscas e tentilhões...


Águas do rio vão passando


Muito mansinhas, mas, chegando


Ao Mar, transformam-se em leões!




*




Ao Sol, fulgura o Oiro dos milhos!


Os lavradores mai-los filhos


A terra estrumam, e depois


Os bois atrelam ao arado


E ouve-se além, no descampado


Num ímpeto, aos berros: - Eh! bois!




*




E, enquanto a velha mala-posta,


A custo vai subindo a encosta


Em mira ao lar dos meus Avós,


Os aldeãos, de longe, alerta,


Olham pasmados, boca aberta...


A gente segue e deixa-os sós.




*




Que pena faz ver os que ficam!


Pobres, humildes, não implicam,


Tiram com respeito o chapéu:


Outros, passando a nosso lado,


Diziam: "Deus seja louvado!"


"Louvado seja" dizia eu.




*




E, meiga, tombava a tardinha...


No chão, jogando a vermelhinha,


Outros vejo a discutir.


Carpiam, místicas, as fontes...


Água fria de Trás-os-Montes


Que faz sede só de se ouvir!



*





E, na subida de Novelas,


O rubro e gordo Cabanelas


Dava-me as guias para a mão:


Isso... queriam os cavalos!


Que eu não podia chicoteá-los...


Era uma dor de coração.




*




Depois, cansados da viagem,


Repoisávamos na estalagem


(Que era em Casais, mesmo ao dobrar... )


Vinha a Sra Ana das Dores


"Que hão de querer os meus Senhores?


Há pão e carne para assar..."




*




Oh! ingênuas mesas, honradas!


Toalhas brancas, marmeladas,


Vinho virgem no copo a rir...


O cuco da sala, cantando. . .


(Mas o Cabanelas, entrando,


Vendo a hora: "É preciso partir").




*




Caía a noite. Eu ia fora,


Vendo uma estrela que lá mora,


No Firmamento português:


E ela traçava-me o meu fado


"Serás Poeta e desgraçado!"


Assim se disse, assim se fez.




*




Meu pobre Infante, em que cismavas,


Por que é que os olhos profundavas


No Céu sem-par do teu País?


Ias, talvez, moço troveiro,


A cismar num amor primeiro:


Por primeiro, logo infeliz...




*




E o carro ia aos solavancos.


Os passageiros, todos brancos,


Ressonavam nos seus gabões:


E eu ia alerta, olhando a estrada,


Que em certo sítio, na Trovoada,


Costumavam sair ladrões.





*





Ladrões! Ó sonho! Ó maravilha!


Fazer parte duma quadrilha,


Rondar, à Lua, entre pinhais!


Ser Capitão! trazer pistolas,


Mas não roubando, — dando esmolas


Dependuradas dos punhais ...



*





E a mala-posta ia indo, ia indo.


o luar, cada vez mais lindo,


Caía em lágrimas, — e, enfim,


Tão pontual, às onze e meia,


Entrava, soberba, na aldeia


Cheia de guizos, tlim, tlim, tlim!




*




Lá vejo ainda a nossa Casa


Toda de lume, cor de brasa,


Altiva, entre árvores, tão só!


Lá se abrem os portões gradeados,


Lá vêm com velas os criados,


Lá vem, sorrindo, a minha Avó.




*




E então, Jesus! quantos abraços!


— Qu'é dos teus olhos, dos teus braços,


Valha-me Deus! como ele vem!


E admirada, com as mãos juntas,


Toda me enchia de perguntas,


Como se eu viesse de Betlém!




*




— E os teus estudos, tens-me andado?


Tomara eu ver-te formado!


Livre de Coimbra, minha flor!


Mas vens tão magro, tão sumido...


Trazes tu no peito escondido,


E que eu não saiba, algum amor?



*





No entanto entrava no meu quarto:


Tudo tão bom, tudo tão farto!


Que leito aquele! e a água, Jesus!


E os lençóis! rico cheiro a linho!


— Vá, dorme, que vens cansadinho.


Não adormeças com a luz!




*




E eu deitava-me, mudo e triste.


(— Reza também o Terço, ouviste?)


Versos, bailando dentro em mim...


Não tinha tempo de ir na sala,


De novo: — Apaga a luz! — Que rala!


Descansa, minha Avó, que sim!




*




Ora, às ocultas, eu trazia


No seio, um livro e lia, lia,


Garrett da minha paixão...


Daí a pouco a mesma reza:


- Não vás dormir de luz acesa,


Apaga a luz! ... (E eu ainda... não!)




*




E continuava, lendo, lendo...


O dia vinha já rompendo,


De novo: - Já dormes, diz?


- Bff!... e dormia com a idéia


Naquela tia Dorotéia,


De que fala Júlio Dinis.




*




Ó Portugal da minha infância,


Não sei que é, amo-te a distância,


Amo-te mais, quando estou só...


Qual de vós não teve na Vida


Uma jornada parecida,

Ou assim, como eu, uma Avó?


*


vicosa_8.jpg





publicado por Lumife às 18:14

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Sábado, 2 de Julho de 2005

Jeito de escrever - Irene Lisboa

maoescrevendo.jpg




Não sei que diga.



E a quem o dizer?



Não sei que pense.



Nada jamais soube.





Nem de mim, nem dos outros.


Nem do tempo, do céu e da terra, das coisas...


Seja do que for ou do que fosse.


Não sei que diga, não sei que pense.





Oiço os ralos queixosos, arrastados.


Ralos serão?


Horas da noite.


Noite começada ou adiantada, noite.


Como é bonito escrever!





Com este longo aparo, bonitas as letras e o gesto - o jeito.


Ao acaso, sem âncora, vago no tempo.


No tempo vago...


Ele vago e eu sem amparo.


Piam pássaros, trespassam o luto do espaço, este sereno luto das horas. Mortas!





E por mais não ter que relatar me cerro.


Expressão antiga, epistolar: me cerro.


Tão grato é o velho, inopinado e novo.


Me cerro!





Assim: uma das mãos no papel, dedos fincados,


solta a outra, de pena expectante.


Uma que agarra, a outra que espera...


Ó ilusão!


E tudo acabou, acaba.


Para quê a busca das coisas novas, à toa e à roda?





Silêncio.


Nem pássaros já, noite morta.


Me cerro.


Ó minha derradeira composição! Do não, do nem, do nada, da ausência e solidão.





Da indiferença.


Quero eu que o seja! da indiferença ilimitada.


Noite vasta e contínua, caminha, caminha.


Alonga-te.


A ribeira acordou.



publicado por Lumife às 17:30

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