Quinta-feira, 7 de Julho de 2005

Viagens na minha terra - António Nobre

MalaPosta_.gif

Malaposta de Lisboa a Coimbra, 1798 (Reconstituição a óleo por J. Pedro Roque, 1968)



Às vezes, passo horas inteiras


Olhos fitos nestas Traseiras,


Sonhando o tempo que lá vai;


E jornadeio em fantasia


Essas jornadas que eu fazia


Ao velho Douro, mais meu Pai.




*




Que pitoresca era a jornada!


Logo, ao subir da madrugada,


Prontos os dois para partir:


— Adeus! adeus! é curta a ausência,


Adeus! — rodava a diligência


Com campainhas a tinir!



*





E, dia e noite, aurora a aurora,


Por essa doida terra fora,


Cheia de Cor, de Luz, de Som,


Habituado à minha alcova


Em tudo eu via coisa nova,


Que bom era, meu Deus! que bom!




*




Moinhos ao vento! Eiras! Solares!


Antepassados! Rios! Luares!


Tudo isso eu guardo, aqui ficou:


ó paisagem etérea e doce,


Depois do Ventre que me trouxe


A ti devo eu tudo que sou




*




No arame oscilante do Fio,


Amavam (era o mês do cio)


Lavandiscas e tentilhões...


Águas do rio vão passando


Muito mansinhas, mas, chegando


Ao Mar, transformam-se em leões!




*




Ao Sol, fulgura o Oiro dos milhos!


Os lavradores mai-los filhos


A terra estrumam, e depois


Os bois atrelam ao arado


E ouve-se além, no descampado


Num ímpeto, aos berros: - Eh! bois!




*




E, enquanto a velha mala-posta,


A custo vai subindo a encosta


Em mira ao lar dos meus Avós,


Os aldeãos, de longe, alerta,


Olham pasmados, boca aberta...


A gente segue e deixa-os sós.




*




Que pena faz ver os que ficam!


Pobres, humildes, não implicam,


Tiram com respeito o chapéu:


Outros, passando a nosso lado,


Diziam: "Deus seja louvado!"


"Louvado seja" dizia eu.




*




E, meiga, tombava a tardinha...


No chão, jogando a vermelhinha,


Outros vejo a discutir.


Carpiam, místicas, as fontes...


Água fria de Trás-os-Montes


Que faz sede só de se ouvir!



*





E, na subida de Novelas,


O rubro e gordo Cabanelas


Dava-me as guias para a mão:


Isso... queriam os cavalos!


Que eu não podia chicoteá-los...


Era uma dor de coração.




*




Depois, cansados da viagem,


Repoisávamos na estalagem


(Que era em Casais, mesmo ao dobrar... )


Vinha a Sra Ana das Dores


"Que hão de querer os meus Senhores?


Há pão e carne para assar..."




*




Oh! ingênuas mesas, honradas!


Toalhas brancas, marmeladas,


Vinho virgem no copo a rir...


O cuco da sala, cantando. . .


(Mas o Cabanelas, entrando,


Vendo a hora: "É preciso partir").




*




Caía a noite. Eu ia fora,


Vendo uma estrela que lá mora,


No Firmamento português:


E ela traçava-me o meu fado


"Serás Poeta e desgraçado!"


Assim se disse, assim se fez.




*




Meu pobre Infante, em que cismavas,


Por que é que os olhos profundavas


No Céu sem-par do teu País?


Ias, talvez, moço troveiro,


A cismar num amor primeiro:


Por primeiro, logo infeliz...




*




E o carro ia aos solavancos.


Os passageiros, todos brancos,


Ressonavam nos seus gabões:


E eu ia alerta, olhando a estrada,


Que em certo sítio, na Trovoada,


Costumavam sair ladrões.





*





Ladrões! Ó sonho! Ó maravilha!


Fazer parte duma quadrilha,


Rondar, à Lua, entre pinhais!


Ser Capitão! trazer pistolas,


Mas não roubando, — dando esmolas


Dependuradas dos punhais ...



*





E a mala-posta ia indo, ia indo.


o luar, cada vez mais lindo,


Caía em lágrimas, — e, enfim,


Tão pontual, às onze e meia,


Entrava, soberba, na aldeia


Cheia de guizos, tlim, tlim, tlim!




*




Lá vejo ainda a nossa Casa


Toda de lume, cor de brasa,


Altiva, entre árvores, tão só!


Lá se abrem os portões gradeados,


Lá vêm com velas os criados,


Lá vem, sorrindo, a minha Avó.




*




E então, Jesus! quantos abraços!


— Qu'é dos teus olhos, dos teus braços,


Valha-me Deus! como ele vem!


E admirada, com as mãos juntas,


Toda me enchia de perguntas,


Como se eu viesse de Betlém!




*




— E os teus estudos, tens-me andado?


Tomara eu ver-te formado!


Livre de Coimbra, minha flor!


Mas vens tão magro, tão sumido...


Trazes tu no peito escondido,


E que eu não saiba, algum amor?



*





No entanto entrava no meu quarto:


Tudo tão bom, tudo tão farto!


Que leito aquele! e a água, Jesus!


E os lençóis! rico cheiro a linho!


— Vá, dorme, que vens cansadinho.


Não adormeças com a luz!




*




E eu deitava-me, mudo e triste.


(— Reza também o Terço, ouviste?)


Versos, bailando dentro em mim...


Não tinha tempo de ir na sala,


De novo: — Apaga a luz! — Que rala!


Descansa, minha Avó, que sim!




*




Ora, às ocultas, eu trazia


No seio, um livro e lia, lia,


Garrett da minha paixão...


Daí a pouco a mesma reza:


- Não vás dormir de luz acesa,


Apaga a luz! ... (E eu ainda... não!)




*




E continuava, lendo, lendo...


O dia vinha já rompendo,


De novo: - Já dormes, diz?


- Bff!... e dormia com a idéia


Naquela tia Dorotéia,


De que fala Júlio Dinis.




*




Ó Portugal da minha infância,


Não sei que é, amo-te a distância,


Amo-te mais, quando estou só...


Qual de vós não teve na Vida


Uma jornada parecida,

Ou assim, como eu, uma Avó?


*


vicosa_8.jpg





publicado por Lumife às 18:14

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