Quarta-feira, 1 de Junho de 2005

MIGUEL TORGA - (1907-1995)

MTorga.gif






Cronologia





1907



Miguel Torga, nome literário de Adolfo Correia Rocha, nasceu a 12 de Agosto em S. Martinho de Anta, uma pequena aldeia do concelho de Sabrosa, distrito de Vila Real, província de Trás-os-Montes.



No romance autobiográfico A Criação do Mundo, a aldeia natal aparece designada com o nome mítico de Agarez. A descrição de Agarez corresponde, no entanto, a S. Martinho de Anta, com os seus pontos de referência: o largo ou "Eirô", o negrilho (designação popular do olmo negro), a casa paterna, a escola primária ao fundo do povo e a capela da Senhora da Azinheira.



Os pais, camponeses pobres, são evocados em várias páginas do Diário e n'A Criação do Mundo. O pai, Francisco Correia Rocha, é retratado como um exemplo de tenacidade, de inteireza e de aprumo moral. A mãe, Maria da Conceição de Barros, tinha com o filho Adolfo uma relação de cumplicidade e ternura. É evocada, também, numa página d' "O Primeiro Dia" d'A Criação do Mundo.



Adolfo tinha dois irmãos: José e Maria. José emigrou para o Brasil e por lá ficou. A irmã Maria Correia Rocha viveu sempre na aldeia, dirigindo a casa de lavoura depois da morte dos pais.



Fez a instrução primária na escola de S. Martinho de Anta. O mestre-escola - o "senhor Botelho" - é uma das figuras mais vincadas das primeiras páginas de A Criação do Mundo.





1917



Concluída a quarta classe, a mãe mandou-o para o Porto como criado de servir numa casa rica de uns senhores da sua aldeia.





1918



Entrou para o Seminário de Lamego, onde permaneceu um ano.





1920



Em Outubro de 1920, aos treze anos, os pais mandam-no para o Brasil para trabalhar na fazenda de um tio paterno, a Fazenda de Santa Cruz, no Estado de Minas Gerais. Fazenda enorme: dentro do seu perímetro havia duas estações de caminho de ferro. Fez de tudo um pouco: foi responsável pelo terreiro, ia a cavalo buscar o correio longe da fazenda, capinador de café, tinha a seu cargo a escrita da fazenda e até o mandaram laçar cobras venenosas para fornecer ao Instituto Butantan, a troco de soro anti-ofídio.



O tio era um homem duro e empreendedor, que subiu a pulso e fez fortuna como emigrante graças a uma estratégia arrojada: comprava por baixo preço uma fazenda arruinada pela abolição da escravatura, tornava-a próspera em poucos anos, e vendia-a para comprar de seguida outra fazenda maior.



O tom ríspido e sem admitir réplicas do tio e a má-vontade da mulher tornavam-lhe os dias um inferno. Aguentou aquilo durante quatro anos.



A 20 de Fevereiro de 1924, o tio, querendo ajudá-lo, matriculou-o no Ginásio Leopoldinense, em Leopoldina, Minas Gerais, para continuar a estudar.



Os anos da adolescência no Brasil são evocados n'"O Segundo Dia" d' A Criação do Mundo.





1925



Como recompensa dos cinco anos de trabalho na fazenda, o tio deu-lhe a escolher entre duas possibilidades: ou montar-lhe uma loja no Rio de Janeiro, ou pagar-lhe os estudos.



Adolfo Rocha regressou a Portugal, concluiu o liceu em três anos, e matriculou-se a seguir na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra.





1928



Neste ano iniciou a frequência do curso de Medicina.



Morava na república "Estrela do Norte", na Ladeira do Seminário, em Coimbra. Entre os colegas do Curso Médico, contava-se Frederico de Moura, autor do livro Vestígios de Miguel Torga (1977).



O Diário, iniciado em 1932, inclui uma nota da sua passagem pela Universidade ("Passo por esta Universidade como cão por vinha vindimada. Nem eu reparo nela nem ela repara em mim."), indício do desprezo por uma instituição elitista envelhecida e politicamente servil.



Foi neste ano que publicou o seu primeiro livro de versos, Ansiedade. Mais tarde, retira-o do mercado, recuperando para a Antologia Poética (1981) um único verso do poema "Ignoto": "(...) Sinto o medo do avesso (...)".





1929



Data deste ano o início da sua colaboração na revista «presença», fundada em 1927 por José Régio, Branquinho da Fonseca e João Gaspar Simões. Aí publicou vários poemas, bem como alguma prosa. A passagem pela revista foi decisiva para a sua formação literária, muito embora fossem irredutíveis os universos de Torga e de Régio.





1930



Abandonou o grupo da «presença», juntamente com Edmundo de Bettencourt e Branquinho da Fonseca, por divergências com a orientação da revista.



Da aventura presencista ficam, todavia, marcas vivas no espírito do Autor. Por exemplo, as leituras de Dostoievsky, Proust, Gide, Ibsen, Jorge Amado, José Lins do Rego, Cecília Meireles, Ribeiro Couto e Jorge de Lima, autores que a revista contribuiu para divulgar em Portugal. E também o fascínio pelo cinema, em especial pelo cinema mudo e pelos seus heróis: Charlie Chaplin e Buster Keaton.



No seguimento da cisão de 1930, Adolfo Rocha e Branquinho da Fonseca editam no mesmo ano, em Coimbra, o número único da revista Sinal.



É ainda sob a chancela das edições "presença" que publica, nesse mesmo ano, o livro de poemas Rampa. Adolfo Rocha envia um exemplar de Rampa a Fernando Pessoa, que lhe agradece, em carta datada de 6 de Junho de 1930. Adolfo Rocha responde a esta carta, em termos bastante acres, questionando o "conceito de Poesia" de Pessoa. Pessoa ainda replica, escrevendo uma segunda e extensa carta em que explicita as suas ideias estéticas.





1931



Publicou, em edição de Autor, Pão Ázimo e Tributo.





1932



Publicou, também em edição de Autor, Abismo.

Foi neste ano que iniciou a escrita do extenso Diário, que se prolongaria até 1994.





1933



Já licenciado em Medicina, Adolfo Rocha regressou a S. Martinho de Anta, e trabalhou depois em Vila Nova de Miranda do Corvo como clínico geral.





1934



Publicou A Terceira Voz, onde adoptou, pela primeira vez, o pseudónimo de Miguel Torga. "Torga" é a designação nortenha da urze, planta brava da montanha, de raiz dura e flor branca ou arroxeada. "Miguel" é o nome escolhido em homenagem a dois grandes vultos da cultura ibérica: Miguel de Cervantes e Miguel de Unamuno.





1936



Publicou O Outro Livro de Job.



Com Albano Nogueira, fundou a revista «Manifesto», contando com a colaboração de Vitorino Nemésio, Álvaro Salema, Afonso Duarte, Paulo Quintela, Bento de Jesus Caraça, Joaquim Namorado e Fernando Lopes-Graça, entre outros.



As circunstâncias históricas e políticas daquela década traziam para a ordem do dia a discussão sobre a missão do artista. Interessada no homem enquanto ser social, «Manifesto» mostrou-se atenta ao real histórico imediato e não deixou de sublinhar a responsabilidade cívica do artista. O quinto e último número inclui apenas colaboração de Miguel Torga. A revista acaba devido a dificuldades com a Censura.



Inicia-se a Guerra Civil de Espanha. O conflito entre nacionalistas e republicanos deixou em Torga uma profunda cicatriz interior. Na sangrenta luta fratricida jogavam-se todos os ideais revolucionários da sua geração e das gerações mais jovens. O autor viveu-a intensamente, e exprime em vários dos seus livros a mágoa da devastação e o sentimento de luto pela imensa ferida aberta na terra e nos homens da Ibéria.



Presenciada de forma tão próxima (geográfica e espiritualmente), a Guerra Civil é evocada n' "O Quarto Dia" e n' "O Quinto Dia" d'A Criação do Mundo, no Diário, no conto "O Regresso" (in Novos Contos da Montanha), em Alguns Poemas Ibéricos, bem como em artigos nos jornais e palestras.





1937



Publicou A Criação do Mundo - "Os Dois Primeiros Dias".



Em Coimbra concluiu a especialidade em otorrinolaringologia.



Iniciou a sua colaboração na Revista de Portugal, dirigida por Vitorino Nemésio, com páginas d'A Criação do Mundo, do Diário, "Poemas Ibéricos" e o conto "Nero".



Entre Dezembro de 1937 e Janeiro de 1938 fez uma viagem por Espanha, França, Bélgica e Itália.





1938



Publicou "O Terceiro Dia" d'A Criação do Mundo.





1939



Nesta data montou consultório em Leiria, no entanto, ia todos os fins-de-semana a Coimbra, onde se relacionou com professores, artistas e intelectuais: Paulo Quintela, Martins de Carvalho, António de Sousa, Vitorino Nemésio, etc.



Em casa de Vitorino Nemésio (a casa do Tovim, em Coimbra) Miguel Torga conheceu Andrée Crabbé, sua futura mulher. De nacionalidade belga, Andrée fora aluna de Vitorino Nemésio em Bruxelas, vindo em 1938 frequentar um Curso de Férias na Universidade de Coimbra.



Edita "O Quarto Dia" d'A Criação do Mundo, um dos poucos testemunhos sobre a Guerra Civil de Espanha que em Portugal foram produzidos a partir duma vivência in loco e publicados durante o conflito. A descrição crua duma Espanha devastada pela luta fratricida e dominada pelo franquismo, e também duma Itália arrebatada pelos discursos de Mussolini, levou Miguel Torga às cadeias de Salazar. O livro foi imediatamente apreendido, e o Autor foi preso em Leiria, e depois levado para o Aljube. Num gesto de solidariedade, alguns amigos de Leiria revezaram-se a acompanhá-lo na transferência para Lisboa, seguindo por etapas o carro em que ia preso. Apoio que não esmoreceu durante os três meses de encarceramento.





1940



A 1 de Janeiro, ainda na cadeia do Aljube, compôs um dos seus mais conhecidos poemas de resistência, "Ariane".



A 27 de Julho casou com Andrée Crabbé.



Publicou o volume de contos Bichos.



Mudou-se para Coimbra, onde foi morar numa pequena casa no n.° 32 da Estrada da Beira



Abriu consultório no Largo da Portagem, n.° 45. Aí iria exercer a especialidade de otorrinolaringologia durante mais de cinquenta anos. Homem de hábitos, Torga ia todos os dias ao consultório, de eléctrico ou de trolley, passando primeiro pela tipografia ou pelas livrarias da Baixa, e detendo-se na Central, e mais tarde no café Arcádia, onde se juntava a uma pequena tertúlia.



Com vista sobre o rio e a cidade, o consultório era a sua "janela" sobre o mundo.





1941



Neste ano publicou vários livros: o primeiro volume do Diário, que inaugurava um monumental conjunto de dezasseis; o volume de teatro Terra Firme. Mar e o volume de contos intitulado Montanha. Este último foi apreendido. Mais tarde, em 1955, Miguel Torga fez uma edição no Rio de Janeiro, com o título Contos da Montanha, que circulou clandestinamente em Portugal. A 3.ª edição, da Pongetti (Rio de Janeiro), é de 1962.



Proferiu nas Pedras Salgadas, no Segundo Congresso Transmontano, a conferência "Um Reino Maravilhoso", texto que viria a incluir no livro Portugal.





1942-1945



Deste período historicamente crucial, encontram-se vários reflexos na obra de Torga. Por exemplo, a nota do Diário de 25 de Junho de 1944: "Esta guerra minou-me os alicerces. Intelectualmente, sou demasiado cidadão do mundo para poder olhá-lo sem sentir que longe dela atraiçoo tudo quanto penso e quanto desejo; fisicamente, sou excessivamente de S. Martinho de Anta para ir morrer a um campo de batalha fora das minhas fronteiras. De maneira que pareço um tolo no meio de uma ponte: quero morrer e viver ao mesmo tempo no mesmo instante. E o pior é que esse instante dura há anos, e não sei quando acabará" (Diário, vol. III).



Miguel Torga continuava a publicar, em edições de Autor. Recusava-se a enviar as obras à Censura prévia, e assumia os custos das suas publicações, para não causar eventuais prejuízos (financeiros, mas sobretudo de envolvimento político) aos editores. As edições de Autor, de aspecto sóbrio e austero e a preços acessíveis, serão uma marca da obra torguiana.



Deu à estampa o volume de contos Rua (1942), Lamentação (1943), o segundo volume do Diário (1943), O Senhor Ventura (1943), Libertação (1944), Novos Contos da Montanha (1944) e o romance Vindima (1945).



A 5 de Fevereiro de 1944 leu no Clube dos Fenianos Portuenses o texto "O Porto", editado no mesmo ano e retomado depois no volume Portugal.



A 24 de Novembro proferiu, a convite do Ateneu Comercial do Porto, uma conferência intitulada "Eça de Queiroz - um problema de consciência", no âmbito das comemorações do centenário do autor d'A Cidade e as Serras.





1946



Publicação de Odes e do terceiro volume do Diário.





1947



Andrée Rocha, que se doutorara em 1944 com uma tese sobre O Teatro de Garrett, foi demitida juntamente com outros colegas, por ordem de Salazar, das funções de professora na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, por durante uma greve de estudantes se recusar a ser delatora dos alunos grevistas. De nada valeram as manifestações de solidariedade.



Torga publicou o poema dramático Sinfonia.





1948



Morte da mãe.



Nesta altura projectava lançar a "revista literária mensal" Rebate, com colaboração de Carlos Sinde (pseudónimo de Martins de Carvalho) e Lourenço Faria (Eduardo Lourenço). Perante a lista dos colaboradores, a Censura levantou dificuldades e o projecto acabou por morrer.



Publica Nihil Sibi. O título foi-lhe sugerido pela inscrição encontrada numa fonte de Caldelas, no Minho: a fonte é pura dádiva aos outros, nada guarda para si.





1949



Publicação da peça O Paraíso e do quarto volume do Diário.





1950



Publicação de Cântico do Homem, que reúne alguns dos mais combativos poemas de Torga: "Ar livre", "Dies Irae" e "Hossana!". Juntamente com o volume Orfeu Rebelde, Cântico do Homem assinala a fase mais intensa da poesia de resistência de Torga.



A caça era uma das paixões de Torga. Era a libertação dos instintos, a outra face do cidadão e do intelectual. Esta actividade de Torga mereceu o estudo de Louis Soler: "La chasse comme métaphore chez Miguel Torga".



Outra das paixões do autor era conhecer Portugal. Desde os tempos de Leiria, percorria o país de lés a lés, registando as paisagens, os monumentos, os modos de falar, os sabores do pão e do vinho, a feição das gentes.



Em 1950 publicou o livro Portugal, uma "invenção de Portugal" (na fórmula feliz de um crítico francês) que é a expressão dessa aprendizagem, dessa decifração e dessa compreensão da pátria.



Fez uma viagem de carro a Itália, visitando Pisa, Veneza, Florença, Roma, Nápoles, Capri, Pompeia e a Sicília.



A tradução inglesa de Bichos, a cargo de Denis Brass, foi editada pela George Allen & Unwin, com o título Farrusco the Blackbird.



Foi também em 1950 que a peça Mar iria ser representada em Londres, por iniciativa de Ruben A., então leitor no King's College. A encenação foi do próprio Ruben A., que fez também uma adaptação do espectáculo para a BBC. Ruben conhecera Torga em Coimbra e tornou-se um dedicado amigo do poeta.



Mais tarde, em 1965, Ruben A. escreveria para o «Diário Popular» um artigo comemorativo dos vinte e cinco anos da publicação de Bichos. O artigo seria integralmente cortado pela Censura.



O artigo de Ruben A. acabaria por ser publicado no n.° 37 da revista «Colóquio».





1951-1952



Foi publicado o livro de contos Pedras Lavradas (1951), o quinto volume do Diário (1951) e Alguns Poemas Ibéricos (1952). Esta última obra foi refundida e acrescentada na edição de 1965, intitulada Poemas Ibéricos.





1953



Passou a morar na rua Fernando Pessoa, n.° 3.



Publicou o sexto volume do Diário.



Fez uma viagem à Grécia e à Turquia, na companhia de outro grande amigo de sempre: o Dr. Fernando Vale, médico em Arganil, prestigiada figura da Oposição ao regime e mais tarde fundador do Partido Socialista.



Mais tarde, depois da campanha de Humberto Delgado (1958), Fernando Vale foi preso, acabando por ser julgado em plenário. Torga foi uma das testemunhas de defesa.





1954



Publicou Penas do Purgatório.



Convidado a participar num Congresso de Escritores em São Paulo, regressou ao Brasil, e reviu os lugares onde passou a sua adolescência de emigrante. Na companhia da mulher, visitou a Fazenda de Santa Cruz e o tio. No Centro Transmontano de São Paulo proferiu a conferência "Trás-os-Montes no Brasil", depois publicada no livro Traço de União.



No mesmo ano foi distinguido pelo Ateneu Comercial do Porto com o Prémio Literário Comemorativo do Centenário da Morte de Garrett. Recusou o prémio, pondo à disposição do Ateneu a importância atribuída, e pedindo que ela fosse utilizada na publicação das melhores obras dos jovens poetas concorrentes ao prémio.





1955



Publicou Traço de União, um conjunto de ensaios de temática luso-brasileira.



Nasceu a sua filha Clara.





1956



Publicação do sétimo volume do Diário.



Morte do pai.





1958



Publicação de Orfeu Rebelde.



Representação da peça Mar pelo Teatro Experimental do Porto, com encenação de António Pedro.



Participação na campanha de Humberto Delgado.



Comemoração em Coimbra das Bodas de Prata do Curso Médico de 1933. No encerramento da reunião, que durou três dias, Frederico de Moura propôs que o Curso promovesse uma homenagem a Miguel Torga. A homenagem realizou-se a 7 de Dezembro de 1958, na antiga república "Estrela do Norte", onde foi descerrada uma lápide em granito com a seguinte inscrição:



"Nesta casa viveu, quando escolar de Medicina, o grande escritor MIGUEL TORGA. Assim o recordam os seus condiscípulos 25 anos depois. 16 de Maio de 1958".





1959



Publicação do oitavo volume do Diário, logo apreendido pela polícia.





1960



Candidatura ao Prémio Nobel. O nome de Miguel Torga foi proposto à Academia Sueca por um professor da Universidade de Montpellier, Jean-Baptiste Aquarone, que durante algum tempo ensinara na Universidade de Coimbra. A propositura ao Nobel foi entusiasticamente apoiada por escritores, artistas plásticos, músicos, médicos, professores e jornalistas portugueses e estrangeiros (em especial do Brasil, mas também da Europa e de África).





1962-1965



Publicação de Câmara Ardente (1962), do nono volume do Diário (1964) e de Poemas Ibéricos (1965).





1966



O Teatro Experimental de Cascais levou à cena a peça Mar, com encenação de Carlos Avilez.





1967



Miguel Torga interveio no Colóquio Internacional Comemorativo do Centenário da Abolição da Pena de Morte em Portugal com o texto "Pena de Morte" (Coimbra, 1967; reeditado em Diário, vol. X).





1968



Publicação do décimo volume do Diário.





1969



Recusou o Grande Prémio Nacional de Literatura, por se tratar de um prémio oficial, outorgado pelo regime.



Foi-lhe atribuído o Prémio Literário Diário de Notícias.



Subscreveu o manifesto "Dos Escritores ao País", cortado pela Censura. Nesse texto, um grupo de destacados intelectuais reclamava o restabelecimento das liberdades em Portugal, exigia a abertura das prisões políticas e apelava à participação cívica dos portugueses e ao voto nos candidatos de todas as correntes da oposição democrática.



Tomou parte no II Congresso Republicano de Aveiro.





1973



Publicou o décimo primeiro volume do Diário.



Fez uma viagem a Angola e a Moçambique, na companhia do Padre Valentim Marques, gerente da Gráfica de Coimbra. Antevendo o fim próximo do domínio colonial português, Torga quer conhecer os cenários da lusofonia.



Procurava compreender as razões do conflito entre o branco e o negro. As anotações desse périplo africano deixam transparecer o mal-estar de quem sente "um abismo intransponível com quinhentos anos de largura" entre o visitante e o indígena. A PIDE seguiu todos os seus passos em território ultramarino, conforme o documentam vários relatórios arquivados no "dossier" de Miguel Torga.





1974



Em Portugal deu-se a Revolução do 25 de Abril.



Torga não partilhou da euforia colectiva, suspeitoso em relação a um golpe protagonizado por militares. Regista no Diário:



"Coimbra, 25 de Abril de 1974 - Golpe militar. Assim eu acreditasse nos militares. Foram eles que, durante os últimos macerados cinquenta anos pátrios, nos prenderam, nos censuraram, nos apreenderam e asseguraram com as baionetas o poder à tirania. Quem poderá esquecê-lo? Mas pronto: de qualquer maneira é um passo. Oxalá não seja duradoiramente de parada..." (Diário, vol. XII).



Participou nos festejos do 1° de Maio com a mesma reserva. No entanto, fiel ao seu compromisso cívico e "movido por um imperativo moral", participou no 1° comício do Partido Socialista em Coimbra, a 1 de Junho de 1974, e no comício socialista de Sabrosa, a 30 de Junho de 1974. Sempre como independente, discursou ainda noutros comícios socialistas.



Mais tarde, diria em entrevista ao jornal «Libération», de 11 de Fevereiro de 1988: "J'ai toujours voulu rester un homme indépendant. Sentimentalement je suis socialiste, mais, au fond, je reste un anarchiste. Un rebelle".



Publicação d'"O Quinto Dia" d'A Criação do Mundo, trinta e cinco anos depois da edição d'"O Quarto Dia" (apreendido em 1939, e só reeditado em 1971). A experiência da prisão ocupa uma parte substancial d'"O Quinto Dia", volume que recobre um lapso temporal de apenas dois anos, deixando para o seguinte toda a soma de vivências posteriores a 1940.





1975



Sinde Filipe realizou uma média-metragem a partir do conto "O Leproso" (Novos Contos da Montanha).





1976



Editou o volume Fogo Preso, que reúne entrevistas, conferências e alocuções.





1977



Publicou o décimo segundo volume do Diário.



Foi galardoado com o Prémio Internacional de Poesia das Bienais de Knokke-Heist, que recebeu em Bruxelas, a 6 de Junho de 1977.



Colaborou no filme "Eu, Miguel Torga", realizado por João Roque. O documentário, rodado em Trás-os-Montes e em Coimbra, passou em 1987 na televisão, em quatro episódios, e pertence aos arquivos da RTP.



Como o testemunha uma página do Diário, o Autor procurou esquivar-se à exposição de si mesmo no filme, preferindo compaginar o seu perfil com a geografia física, humana e cultural dos lugares da sua identidade.





1978



Foi de novo proposto para o Prémio Nobel, com o apoio de personalidades destacadas da vida intelectual portuguesa e estrangeira. O prémio Nobel de Literatura de 1977, Vicente Aleixandre, foi um dos apoiantes desta segunda propositura.



Foi galardoado com a medalha de honra da Associação Internacional de Reitores.



A 26 de Dezembro foi homenageado na Fundação Calouste Gulbenkian, no âmbito das comemorações que assinalaram a passagem dos seus cinquenta anos de vida literária. A iniciativa partiu de David Mourão-Ferreira, então Secretário de Estado da Cultura.



Adaptação cinematográfica do conto "O Milagre" (Novos Contos da Montanha), com realização de Sinde Filipe.





1979



Nova homenagem, desta vez por iniciativa do Conselho Científico da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Para além de uma exposição bibliográfica, a Faculdade organizou uma sessão solene, presidida pelo Reitor da Universidade, Prof. Doutor A. A. Ferrer Correia.





1980



Recebeu o Prémio Morgado de Mateus, ex-aequo com o poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade.



Prosseguiram as homenagens comemorativas dos cinquenta anos de vida literária: a 20 de Novembro foi recebido numa sessão do Rotary Clube de Leiria, onde discursou o antigo condiscípulo e amigo Frederico de Moura.



Adaptação televisiva do conto "Natal" (Novos Contos da Montanha), com João d'Ávila no principal papel.





1981



Publicou "O Sexto Dia" d' A Criação do Mundo e a Antologia Poética. Nunca chegaria a publicar "O Sétimo Dia" do romance autobiográfico, como era seu desejo.



A 10 de Março, recebeu o Prémio Montaigne.





1982



Saiu em Paris uma selecção antológica do Diário, na excelente tradução de Claire Cayron, que em 1973 obtivera a autorização do Autor para traduzir toda a obra. O volume, das edições Aubier Montaigne, intitula-se En Franchise Intérieure. Pages de Journal (1933-1977).



A crítica francesa não deixará de sublinhar as afinidades entre Torga e Montaigne. A recepção da obra em França foi calorosa, e produzia alguns dos melhores textos da bibliografia passiva torguiana, mesmo tratando-se de jornalismo literário imediato. A imprensa francesa consagrou, entre 1981 e 2000, cerca de cento e cinquenta recensões a Torga, acompanhando as sucessivas edições dos seus livros.





1983



Publicação do décimo terceiro volume do Diário.



Samora Machel deslocou-se a Portugal em visita oficial, e Miguel Torga encontrou-se com o Presidente da República de Moçambique no Palácio de São Marcos, nos arredores de Coimbra.





1984



Andarilho como sempre, continuava a viajar. Em Março fez uma viagem ao México, mais uma vez na companhia do Padre Valentim Marques. Visitou Acapulco, Oaxaca, Chinchen Itza, Uxmal, Mérida, Teotihuacan e a Cidade do México.





1986



Um grupo de amigos festejou na Malaposta (Mealhada) os setenta e nove anos do Poeta. Os almoços do dia 12 de Agosto tornaram-se "obrigatórios" nos anos seguintes.





1987



Publicou o décimo quarto volume do Diário. Gravou também o disco "Oitenta Poemas", editado pela Valentim de Carvalho, assinalando os seus oitenta anos.



Convidado a fazer uma conferência em Macau, por ocasião das celebrações do 10 de Junho, Dia de Portugal, Torga viajou até ao Oriente.



A 9 de Junho proferiu no Leal Senado de Macau a conferência "Camões". Visitou Cantão, Hong Kong, e no regresso demorou-se em Goa, para conhecer, com mágoa, o (pouco) que restava da presença portuguesa na Índia.



Como escreveu à chegada a Macau, a 6 de Junho de 1987: "Cá estou. Português até aos últimos confins de Portugal".





1988



O conto "O Vinho" (Contos da Montanha), foi adaptado à televisão. O filme, realizado por C. J. Michaëlis de Vasconcelos, tem Raul Solnado como protagonista.





1989



Recebeu o primeiro Prémio Camões, o mais importante prémio literário no âmbito da lusofonia.





1990



Publicou o décimo quinto volume do Diário.



Foi homenageado pelo Goethe Institut de Coimbra, em sessão presidida pelo Prof. Doutor Karl H. Delille.



Sob a direcção de João Brites, o grupo de teatro "O Bando" pôs em cena, no Convento do Beato, em Lisboa, uma versão dramática de Bichos.





1991



Teresa Rita Lopes recebeu no Porto o Grande Prémio de Ensaio Unicer/Letras e Letras, com um estudo sobre Miguel Torga.



O INATEL publicou o livro Coimbra Vista por Miguel Torga.





1992



A 19 de Março foi distinguido com o Prémio Vida Literária, da Associação Portuguesa de Escritores.



A 8 de Julho foi distinguido com o Prémio Figura do Ano, da Associação dos Correspondentes da Imprensa Estrangeira.



Desfez-se do consultório. Como o atesta a nota do Diário de 8 de Junho de 1992, este foi um dos momentos cruciais da sua vida:



"Desfiz-rne do consultório. Mil circunstâncias adversas conjugaram-se encarniçadamente nesse sentido. E adeus, meu velho reduto, onde durante tantos anos lutei como homem, médico e poeta. Ofereci o material cirúrgico ao Hospital da Misericórdia em que durante anos operei, e o mobiliário à junta de Freguesia de S. Martinho. E fiquei naquelas salas vazias vazio como elas. Sem passado, sem presente e sem futuro, com a minha própria vida abolida no tempo. À medida que os carregadores iam retirando o espólio, tinha a sensação de que estava a ser descarnado, a tornar-me humanamente espectral. No fim, estonteado, com o chão a fugir-me dos pés, sem um banco sequer para me sentar, ainda o telefone tocou. Do lado de lá do fio pediam-me que juntasse aos despojos a tabuleta. Respondi que sim, que ia ser arrancada e seguiria. E perguntei, de voz estrangulada, se queriam que mandasse também o meu cadáver"



(Diário, vol. XVI).



O Salão do Livro de Bordéus atribuiu-lhe o Prémio Écureuil de Literatura Estrangeira, que recebeu em Coimbra, a 14 de Setembro, em sessão na Câmara Municipal, com a presença de Mário Soares, de vários escritores e críticos franceses e da tradutora Claire Cayron.



Em Outubro do mesmo ano, realizou-se na Universidade de Massachusetts, em Amherst, E.U.A., um Colóquio Internacional sobre Miguel Torga. Organizado por Francisco Cota Fagundes, reuniu um conjunto de participantes de várias Universidades portuguesas e norte-americanas.





1993



Publicação do décimo sexto volume do Diário.



Impressionante na sua lucidez, o volume XVI do Diário é o culminar dum percurso iniciado sessenta anos antes com o poema "Santo e Senha", a que responde agora o último poema, intitulado "Requiem por Mim".





1994



Por iniciativa da Universidade Fernando Pessoa, e graças ao dedicado empenho de Maria da Glória Padrão, realizou-se no Porto o 1.° Congresso Internacional sobre Miguel Torga, com a partiçipação de um diversificado conjunto de estudiosos e leitores. Uma das presenças mais acarinhadas durante o Congresso foi o escritor Torrente Ballester, que se deslocou ao Porto e, depois, a S. Martinho de Anta para homenagear Torga. A sua admiração pelo autor de Bichos ficou testemunhada em entrevista concedida a Miguel Viqueira, em 1986:



"Uma literatura que produz, no mesmo século, dois vultos do calibre de Pessoa e Torga, pode considerar-se uma literatura de excelente saúde. (...)



A RTP 2 dedica um "Artes e Letras" a Miguel Torga (6/3/1994). O documentário, intitulado "Torga", foi realizado por Jorge de Campos e teve como consultora literária Maria da Glória Padrão.



Recebeu o Prémio da Crítica da Associação Internacional dos Críticos Literários, 1993.



Foi agraciado pelo Brasil, no Dia da Independência (7 de Setembro), em cerimónia na Embaixada daquele país em Lisboa.



Em finais de Setembro, enviou uma mensagem à 1.ª Reunião do Parlamento Internacional de Escritores, uma associação criada em Julho desse ano e presidida por Salman Rushdie. Foi Andrée Crabbé Rocha quem leu o texto, em Lisboa.



Ainda em 1994, Miguel Torga foi homenageado pelo Conselho Distrital de Coimbra da Ordem dos Advogados.





1995



Miguel Torga morreu a 17 de Janeiro, em Coimbra. A 18, foi sepultado em campa rasa no cemitério da sua terra natal, S. Martinho de Anta.





Enterro de Miguel Torga


A Clara Rocha





Um vento frio soprou

e veio a nuvem negra com seu véu

de luto sobre S. Martinho.



Eu vi a águia que se levantou

e lentamente abriu caminho

direita ao céu.





(Manuel Alegre)



(Instituto Camões)





publicado por Lumife às 00:25

link do post | comentar | favorito
|
1 comentário:
De tv a 25 de Novembro de 2010 às 00:55
Estou a ver na televisao informacao sobre a greve. O elevado grau de adesão á greve geral verificado mostra claramente que a solução imposta pelo Governo PS é repudiada pela maioria dos portugueses. Sócrates mentirá se disser que o bom povo português aceitou os sacrifícios que lhe foram pedidos.

Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Dezembro 2006

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.posts recentes

. ...

. ...

. ...

. Das utopias

. ...

.

.

.

.

.

.arquivos

. Dezembro 2006

. Outubro 2006

. Março 2006

. Dezembro 2005

. Outubro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

. Abril 2005

. Março 2005

. Fevereiro 2005

. Janeiro 2005

. Dezembro 2004

blogs SAPO

.subscrever feeds