Terça-feira, 29 de Março de 2005

Eu que sou feio ... (Cesário Verde)

omni.jpg



Eu, que sou feio, sólido, leal,

A ti, que és bela, frágil, assustada,

Quero estimar-te, sempre, recatada

Numa existência honesta, de cristal.


*


Sentado à mesa dum café devasso.

Ao avistar-te, há pouco, fraca e loura.

Nesta Babel tão velha e corruptora,

Tive tenções de oferecer-te o braço.


*


E, quando socorreste um miserável,

Eu que bebia cálices de absinto,

Mandei ir a garrafa, porque sinto

Que me tornas prestante, bom, saudável.


*


«Ela aí vem!» disse eu para os demais;

E pus-me a olhar, vexado e suspirando,

O teu corpo que pulsa, alegre e brando,

Na frescura dos linhos matinais.


*


Via-te pela porta envidraçada;

E invejava, - talvez não o suspeites!-

Esse vestido simples, sem enfeites,

Nessa cintura tenra, imaculada.


*


Ia passando, a quatro, o patriarca.

Triste eu saí. Doía-me a cabeça.

Uma turba ruidosa, negra, espessa,

Voltava das exéquias dum monarca.


*


Adorável! Tu muito natural,

Seguias a pensar no teu bordado;

Avultava, num largo arborizado,

Uma estátua de rei num pedestal.

publicado por Lumife às 00:32

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1 comentário:
De Anónimo a 31 de Março de 2005 às 15:48
Boas escolhas :) Adicionei-te aos meus links.
BeijosBetty
(http://desfolhada.blogspot.com)
(mailto:ferreiraelisabete@hotmail.com)

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